A inteligência artificial está transformando profundamente a maneira como produzimos conhecimento, organizamos serviços e tomamos decisões. Entretanto, existe uma pergunta que deveria orientar qualquer estratégia de inovação, especialmente no setor público: de que maneira essa tecnologia está efetivamente melhorando a vida das pessoas?
A resposta precisa ir além da modernização de sistemas, da automação de processos ou da aquisição de ferramentas sofisticadas. O verdadeiro valor da inteligência artificial está em sua capacidade de enfrentar problemas concretos da sociedade, ampliar oportunidades e produzir resultados que possam ser percebidos pela população.
Na saúde, sistemas inteligentes podem apoiar diagnósticos, identificar precocemente situações de risco, monitorar pacientes com doenças crônicas e contribuir para uma medicina mais preventiva e personalizada.
Na educação, podem auxiliar professores, identificar dificuldades de aprendizagem e oferecer experiências educacionais adaptadas às necessidades individuais dos estudantes.
Na administração pública, podem antecipar demandas, organizar informações, aperfeiçoar o planejamento e tornar os serviços mais acessíveis, eficientes e responsivos.
São possibilidades extraordinárias. Mas nenhuma delas se concretiza apenas pela existência da tecnologia.
A responsabilidade não pode ser transferida aos algoritmos
Quanto maior a influência da inteligência artificial sobre decisões que afetam diretamente a vida das pessoas, maior deve ser a responsabilidade das instituições que a utilizam.
Um sistema pode recomendar uma conduta clínica, identificar um estudante com dificuldades ou estabelecer prioridades no atendimento de uma demanda pública. Entretanto, é indispensável compreender como essas recomendações são produzidas, quais informações foram utilizadas e quem responde por eventuais erros.
A tecnologia pode ampliar a capacidade humana de decidir, mas não pode servir de justificativa para tornar a responsabilidade invisível.
Esse princípio deve orientar também as contratações públicas. Não basta adquirir uma solução apresentada como inovadora. É necessário avaliar sua segurança, eficácia, interoperabilidade e capacidade de demonstrar resultados.
Afinal, inovação pública não deveria ser medida pela quantidade de sistemas contratados, mas pela capacidade de reduzir filas, melhorar a aprendizagem, prevenir doenças, simplificar serviços e utilizar os recursos disponíveis com maior eficiência.
E isso exige algo frequentemente negligenciado: gestores preparados, profissionais capacitados e instituições dispostas a transformar seus próprios processos de trabalho.
Soberania tecnológica é capacidade de transformar conhecimento em desenvolvimento
O Brasil também precisa compreender a inteligência artificial como uma questão estratégica de desenvolvimento nacional.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 prevê aproximadamente R$ 23 bilhões em investimentos, envolvendo infraestrutura, formação profissional, pesquisa, inovação empresarial e modernização dos serviços públicos.
Trata-se de uma previsão de recursos cuja efetividade dependerá da implementação dos projetos e da capacidade de gerar resultados.
Mas soberania tecnológica não significa apenas possuir servidores instalados em território nacional ou contratar fornecedores brasileiros.
Significa desenvolver competências científicas, formar profissionais, produzir soluções próprias, proteger dados estratégicos e participar da criação de tecnologias, em vez de permanecer exclusivamente como consumidor de sistemas desenvolvidos no exterior.
Também significa valorizar nosso patrimônio intelectual. Dados, pesquisas científicas, produções culturais, obras jornalísticas e conteúdos educacionais possuem valor econômico e social. Sua utilização no desenvolvimento de sistemas inteligentes exige critérios de transparência, respeito aos direitos autorais e condições jurídicas que conciliem proteção e inovação.
Sem investimento em conhecimento, infraestrutura e formação humana, mesmo uma legislação sofisticada poderá coexistir com uma economia profundamente dependente de tecnologias estrangeiras.
O futuro precisa ter as pessoas como protagonistas
A transformação promovida pela inteligência artificial não será apenas tecnológica. Será econômica, institucional, educacional e, sobretudo, humana.
Seu sucesso dependerá da capacidade de construir relações de confiança, preservar direitos e assegurar que seus benefícios não fiquem restritos às grandes organizações ou aos centros mais desenvolvidos.
O Brasil possui desafios sociais complexos, mas também reúne universidades, instituições de pesquisa, empresas inovadoras e profissionais capazes de desenvolver soluções adequadas à nossa realidade.
O que precisamos é aproximar essas competências das necessidades concretas da população, criando ambientes de cooperação entre poder público, iniciativa privada, instituições científicas e organizações da sociedade civil.
A inteligência artificial não deve ser um fim em si mesma. Deve ser um instrumento para construir uma sociedade mais saudável, educada, eficiente, inclusiva e preparada para o futuro.
A verdadeira transformação não acontecerá simplesmente quando tivermos máquinas capazes de realizar tarefas cada vez mais complexas.
Ela acontecerá quando conseguirmos utilizar essa inteligência para reduzir desigualdades, ampliar direitos, prevenir problemas e oferecer melhores oportunidades às pessoas.
Porque, no final, o futuro da inteligência artificial não será definido apenas pela inteligência que conseguimos produzir nas máquinas, mas pela sabedoria com que decidimos colocá-la a serviço da humanidade.
Dr. Ricardo F. Alvares
Diretor Executivo e CEO do IA Instituto — Instituto Inosu Acertas
